Março é conhecido como o "mês da mulher", e a gente não poderia deixar passar em branco a oportunidade de falar um pouco sobre as grandes mulheres da Astronomia, que deixaram um legado de conhecimento de valor imensurável, além de quebrarem duras barreiras para a grande participação e atuação das mulheres na ciência e na Astronomia nos dias de hoje.
Deixamos aqui então a nossa homenagem a todas elas, e para vocês, leitores, um panorama histórico e inspirador, dedicado especialmente a todas as mulheres que estão hoje escrevendo também a história da ciência.
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Na foto, as “mulheres de Pickering”, ou “o harém de Pickering”, como ficou conhecido. Grupo de mulheres astrônomas, minuciosas nos cálculos, que atuou junto a Edward Pickering o Observatório de Harvard. Dentre elas, Henrietta Swan Leavitt e Annie Jump Cannon. | Créditos foto: Instituto Americano de Física |
Foi por volta de 1600 que os nomes das mulheres passaram a aparecer com certa
regularidade nos anais da astronomia. Muitas, à essa época, viveram à sombra de
familiares cientistas – pai, irmão ou cônjuge - a quem ajudavam em seus
trabalhos, colaboravam na redação, nos cálculos e nas classificações. Em geral,
prosseguiram as pesquisas e as tarefas dos seus “protetores” depois de suas
mortes, completando-as com paciência e precisão. Sua maior luta era para ter
acesso ao conhecimento. Precisaram vencer também o preconceito de que trabalho
científico não era da alçada de mulheres.
A verdade é que algumas características tidas como femininas - habilidade
manual, dedicação, paciência e persistência – ajudaram-nas muito no trabalho
científico.
A astrônoma dinamarquesa Sophie Brahe (1556?-1643) era assistente científica
muito silenciosa e brilhante do seu irmão, o astrônomo Tycho Brahe (1546–1601).
Sua atividade como astrônoma foi relatada pelo astrônomo francês Pierre
Gassendi (1592–1655) em De Tychonis Brahei Vita:Tychonis Brahei
Vita: "ela foi uma perita em matemática e astronomia, estudos aos
quais se dedicou com grande entusiasmo".
A astrônoma silesiana Maria Cunitz (1604-1664), além de tradutora dos trabalhos
de Kepler, dedicou-se à melhoria das tábuas astronômicas. Com a obra Urania
propitia (Oels-Silesia, 1650), Cunitz conseguiu uma simplificação das
Tábuas Rudolphianas de Kepler e ganhou uma enorme reputação na Europa. Além de
aperfeiçoar as efemérides, encontrou uma solução mais elegante para o problema
de Kepler.
A astrônoma polonesa Elizabeth Hevelius (1646-1693), segunda esposa do
astrônomo alemão Johann Hevelius (1611-1687), publicou dois catálogos estelares
importantes. Após o falecimento do marido, publicou Firmamentum
Sobiescianum(1690), último catalogo e atlas com 56 folhas, realizado com
base em observações feitas a olho nu, no qual foram traçadas sete novas
constelações até hoje em uso.
A astrônoma alemã Maria Margareth Kirch ou Maria Margareth Winckelmann(1670-1720) aprendeu astronomia com o fazendeiro alemão
Christoph Arnold (1650-1695), um apaixonado pela pesquisa astronômica que, além
de ter descoberto o grande cometa de 1863, observou o trânsito de Mercúrio pelo
disco solar em 31 de outubro de 1690. Em 1686, o astrônomo alemão Gottfried
Kirch (1693-1710) então viúvo instalou-se na cidade de Leipzig, onde conheceu
Maria Margareth com quem se casou. Mais tarde, ela descobriu o cometa de 1702.
Caroline Herschel (1750-1848), apaixonada pela astronomia, especializou-se no
polimento dos espelhos dos telescópios construídos pelo seu irmão – o famoso
músico e astrônomo inglês de origem germânica, William Herschel, descobridor do
planeta Urano - para ajudá-lo. Ela também fabricava os tubos dos telescópios em
papelão. Trabalhadora incansável, ela descobriu um cometa em 1786, o primeiro
dos nove que descobriu em onze anos. Foi a primeira mulher, de que se tem
conhecimento, a receber uma remuneração pelos seus trabalhos.
A tolerância em relação às astrônomas começou a mudar um pouco com Mary Fairfax
Grieg Somerville (1780-1872) – famosa pela tradução para o inglês da obra Traité
de mécanique celeste (1799-1825, Tratado de mecânica celeste) do
matemático e astrônomo francês Pierre Simon de Laplace,(1749-1827) -, que liderou as primeiras lutas de seu tempo a
favor dos direitos das mulheres.
Nessa mesma época que surgem as sátiras contra as mulheres, como, por exemplo, Les
Femmes savantes (As mulheres sábias, 1672) do escritor francês
Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673).
Até o século XVII, as grandes
descobertas eram divulgadas através dos tratados científicos. Porém, a partir
da revolução científica surgiram as grandes edições de obras com objetivo de
popularizar a ciência. Por exemplo, a obra Entretiens sur la pluralité
des mondes (A pluralidade dos mundos habitados, 1686) do
escritor francês Bernard Le Bouyer de Fontenelle (1657-1757), era dedicada às
damas.
No século XVIII apareceram as primeiras enciclopédias específicas para as
mulheres em ciências naturais e medicina. Assim por exemplo, o astrônomo francês Jérôme de Lalande
(1732-1807), em sua Astronomie des Dames (1786) desenvolveu o
gênero da literatura científica chamada “para as damas”, na qual incluiu uma breve
história sobre as astrônomas. Talvez essa tenha sido a primeira história da
ciência, na qual a contribuição das mulheres para a ciência não foi esquecida.
Com o Renascimento e, em seguida, com a Revolução científica, o interesse das
mulheres pela ciência se generalizou. Muitos são os fatores para esta mudança, talvez
o principal deles seja o fato de que nessa época, e por quase 200 anos, se
discutia intensamente sobre a educação da mulher.
Na segunda metade do século do XIX, nos Estados Unidos, o preconceito contra as
mulheres era ainda forte na comunidade científica. Ele só começou a cessar
diante do talento e da qualidade do trabalho feminino. De início, as astrônomas
dedicaram-se à astronomia de posição, à astrofotografia, à fotometria e, mais
tarde, especialmente, à espectroscopia. As mulheres, como Maria Mitchell
(1818-1889) começaram a ensinar a astronomia em 1876. Os observatórios, como o
de Harvard, começaram a contratar algumas mulheres como Annie Jump Cannon
(1863-1941), que teve grande sucesso ao classificar mais de 400.000 estrelas em
nove catálogos, sem falar de seus outros trabalhos. Mas foi necessário esperar
quase um século para ver as mulheres adquirindo uma quase-paridade econômica e
acadêmica com os colegas masculinos.
No mundo da astronomia moderna, o casal Shoemaker ocupou um lugar privilegiado.
Os seus trabalhos são quase inseparáveis. Eugène Shoemaker (1928-1997) confiou
à sua esposa Carolyn Jean Spellman Shoemaker (1929- ), a observação do céu, em
particular, a pesquisa de asteróides e cometas. Em 1982, Carolyn descobriu um
NEO - Near Earth Object (Objeto próximo à Terra) -, um asteróide assim
denominado por passar relativamente perto da Terra. Desde então, a paixão pelos
cometas e asteróides não a abandonou. Em onze anos de trabalho, ela identificou
32. O conjunto dos trabalhos realizados por Carolyn e Eugène valeu ao serem
recompensados pela NASA o título de "Cientistas do Ano" em 1995.
A astrônoma Vera Rubin (1928-) que estudou os movimentos e rotações das
galáxias, foi a primeira mulher que conseguiu trabalhar no Observatório do
Monte Palomar. Vera Rubin teve uma mestra excepcional, Margaret Peachery
Burbridge (1919- ), pioneira na medida da velocidade de rotação das galáxias.
Apaixonada pelos "quasares", Margaret Burbridge formou com seu marido
Geoffrey Ronald Burbridge (1925- ) e os amigos William Alfred Fowler
(1911-1995) e Fred Hoyle (1915-2001), o Quarteto B2FH, a quem se
deve, desde 1964, a idéia de "colapso o núcleo de buraco negro
maciço". As últimas descobertas cosmológicas não impediram que os
Burbridges se opusessem, por razões estritamente científicas, à idéia do Big
Bang.
Margaret Burbridge, Vera Rubin e depois dela também, Susan Jocelyn Bell Burnell
(1943-) - especializada em astronomia no infravermelho e a quem se deve à
descoberta dos pulsares -, foram precedidas por numerosas astrônomas que lhes
abriram o caminho. Especializadas nestes “objetos complexos”, elas
desenvolveram a espectroscopia. No entanto, como a análise espectral não fosse
suficiente para permitir entender a organização das estrelas compreende-se que
era necessário também classificá-las, ferramenta essencial da astronomia
moderna, a classificação estelar remonta à Antigüidade, com os catálogos de
Hiparco e Ptolomeu (c. 120 a.C).
O grande desenvolvimento desta ciência deve-se ao astrônomo norte-americano
Edward Charles Pickering (1846-1919), diretor do Observatório de Harvard (HCO),
que cercou-se de uma equipe feminina – que ficou conhecido como o harém
de Pickering –. capaz de realizar tarefas exigentes
repetitivas.
Entre as mais famosas dentre elas, encontravam-se Williamina Fleming
(1857-1911), Antonia Maury (1866-1952) e Annie Cannon (1863-1941), todas as
três astrônomas responsáveis pelos novos sistemas de classificação das estrelas
utilizados até hoje.
Henrietta Swan Leavitt (1868-1921), nomeada por Pickering como chefe do
departamento de fotometria estelar e de classificação estelar, foi quem
estabeleceu a relação período-luminosidade das Cefeídas. Henrietta Leavitt
deveria ter recebido o prêmio de Nobel. Em 1925, quando a Academia das Ciências
da Suécia anunciou que iria propor seu nome descobriu-se que ela já havia
falecido há quatro anos, pois a sua morte ocorrida em 1921 teve pouca
repercussão.
A astrônoma Cecília Helena Payne-Gaposchkin (1900-1979), primeira mulher
nomeada chefe do departamento de astronomia da Universidade de Harvard, em
1956, dedicou-se à pesquisa das três ou quatro mil estrelas variáveis das
Nuvens de Magalhães.
Convém lembrar que Vera Rubin teve que esperar anos antes que lhe permitissem,
em 1965, observasse ao telescópio de 5 metros do Monte Palomar, porque,
aparentemente era proibido que uma mulher fizesse trabalhos de observação.
Cecília Payne Gaposhkin (1900-1979), uma das grandes entre todas as astrônomas
do século, só alcançou cátedra em Harvard depois de trinta anos de trabalho e
ensino.
Na América Latina, existe uma quantidade considerável de mulheres na astronomia.
O mesmo acontece na Espanha, França e Itália.
No Brasil, a primeira astrônoma profissional foi Yeda Veiga Ferraz Pereira
(1925-), que trabalhou no Observatório Nacional, na década de 1950.
Outros nomes são Rosaly M.C.
Lopes-Gautier – que formou-se na Inglaterra e ficou conhecida por seu trabalho
em Geologia Planetária no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, sigla em
inglês) da NASA, onde ingressou em 1989 -, e Beatriz Barbuy (1950- ), que após
estagiar no Observatório de Meudon, doutorou-se pela Universidade de Paris, em
1982, dedicando-se posteriormente à astrofísica estelar, em particular, ao
cálculo dos espectros moleculares nas estrelas, no Instituto Astronômico e
Geofísico, da Universidade de São Paulo. Em seus estudos das estrelas de fraco
teor metálico, com o objetivo de explorar a formação da Via-Láctea, Beatriz fez
valiosas contribuições com relação às estrelas do núcleo da nossa Galáxia. Como
pesquisadora e professora na USP, teve um importante papel no desenvolvimento
da astrofísica no Brasil.
Hoje, muitas mulheres se dedicam às
carreiras científicas, mas foram necessários muitos anos de lutas nessa
direção. Existem ainda dificuldades a serem enfrentadas, mas as mulheres permanecem
se afirmando como profissionais competentes e qualificadas na ciência também,
assim como em outras áreas do conhecimento.
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Conteúdo adaptado a partir das seguintes fontes: