3 de mar de 2015

A1689-zD1, uma das galáxias mais distantes já encontradas

Região descoberta apresenta características típicas de galáxias mais “maduras”, como a Via Láctea

Imagem do telescópio espacial Hubble mostra o aglomerado de galáxias Abell 1689, cujo efeito de lente gravitacional permitiu a detecção e estudo da galáxia A1689-zD1 (localizada na moldura e ainda assim com brilho tão tênue que mal pode ser vista) - Nasa/ESA

Uma das galáxias mais distantes já encontradas, e por isso muito jovem, apresenta características associadas a objetos do tipo mais “maduros”, como a nossa Via Láctea, numa descoberta que surpreendeu os astrônomos e mostra que as primeiras galáxias do Universo podem ter evoluído muito mais rápido do que se pensava. Localizada a 13 bilhões de anos-luz de distância da Terra, a galáxia, batizada A1689-zD1, é vista como estava quando o Universo tinha apenas cerca de 700 milhões de idade, pouco depois do início de uma época conhecida na cosmologia como da “reionização”, quando a radiação emitida pelas primeiras estrelas começou a dissipar o “nevoeiro” formado pela abundância de átomos neutros de hidrogênio do Universo primordial, que absorvia toda a luz emitida e o deixavam opaco.

Esta galáxia jovem com aparência de velha foi identificada pela primeira vez em 2008 em imagens feitas com o telescópio espacial Hubble, mas só agora os astrônomos puderam calcular sua distância, composição e outras propriedades com observações combinadas feitas pelo conjunto de telescópios óticos VLT, do Observatório Europeu do Sul (ESO), e o radiotelescópio Alma, ambos instalados no Chile. Essas análises, no entanto, só foram possíveis graças a uma coincidência cósmica que produz um efeito conhecido como “lente gravitacional”: a galáxia está numa região do céu que a coloca, do ponto de vista da Terra, logo “atrás” de um gigantesco aglomerado de galáxias chamado Abell 1689, cuja gravidade amplifica em aproximadamente dez vezes a luz por ela emitida antes de chegar até nós. Sem isso, seu brilho seria tão tênue que ela sequer seria detectada.

Segundo os cientistas, apesar de ser só uma “criança” em termos cósmicos, a galáxia contém uma proporção relativamente alta de “metais”, termo na astronomia que serve para definir qualquer elemento que não o hidrogênio, hélio e lítio, os três mais simples e únicos formados pelo Big Bang, a grande explosão que se acredita ter dado origem ao nosso Universo há cerca de 13,7 bilhões de anos. Todos os outros, do carbono que constrói nossos corpos ao oxigênio que respiramos, o ferro de nossas ferramentas e assim em diante, foram forjados a partir dos três originais nas fornalhas nucleares das primeiras gerações de estrelas e espalhados nas cinzas de sua explosão em supernovas ou outros processos astrofísicos que marcam o fim da vida destes tipos de astros. Além disso, as observações indicam que a galáxia tem uma proporção entre esta poeira de estrelas mortas e gás interestelar e uma baixa taxa de formação de novas estrelas similares ao de galáxias mais velhas como a Via Láctea.

- Embora a origem exata desta poeira galáctica continue obscura, nossos achados indicam que sua produção aconteceu muito rapidamente, num espaço de apenas 500 milhões de anos desde o início da formação das primeiras estrelas do Universo, um tempo cosmológico muito curto, já que a maioria das estrelas vive por bilhões de anos – destaca Darach Watson, pesquisador da Universidade de Copenhague e primeiro autor de artigo sobre a descoberta, publicado on-line nesta segunda-feira pela revista “Nature”.

Ainda de acordo com os astrônomos, estas características sugerem que a galáxia ou formou uma boa quantidade de novas estrelas em um ritmo constante desde o início de sua vida ou passou por uma fase de formação extremamente explosiva destes astros, entrando rapidamente num estágio de declínio deste processo.

- Esta galáxia incrivelmente poeirenta para ter se apressado na formação de suas primeiras gerações de estrelas – diz Kirsten Knudsen, pesquisadora da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, e coautora do artigo no site da “Nature”. - No futuro, o Alma vai nos ajudar a encontrar mais galáxias como esta e esclarecer o que faz com que elas tendam a amadurecer tão rápido.

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Matéria de Cesar Baima, publicada originalmente no site O Globo

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